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O Historiogger

História e blogosfera (ou faz de conta que sim)

História e blogosfera (ou faz de conta que sim)

O Historiogger

16
Mar25

5 anos de pandemia


Há 5 anos entrávamos todos em confinamento, com uma pandemia declarada. Foi a 14 de março que iniciei um blog dedicado ao assunto, chamado "diário de uma pandemia" (https://corona2020.blogs.sapo.pt/). Era para ser uma coisa longa, infelizmente durou apenas 25 dias, porque achei na altura que não valia a pena, que era tudo repetido. E fartei-me. Hoje tenho pena, porque teria sido interessante perceber as oscilações do quotidiano, do humor e das expectativas num período mais longo.

O primeiro post chama-se "post I" e reza assim. Mal sabia (sabíamos) o que vinha aí:

"Dia 1,  14 de março de 2020. Uma sugestão do Miguel Monjardino, lida no Facebook (não me lembro de quem), sobre o interesse de as pessoas escreverem diários sobre os tempos excecionais que vivemos e que se avizinham, leva-me a pensar em criar um blog. Depois, não. Sim. Não, deve haver milhares. Sim. Não, não tem interesse nenhum. Sim porque não? Não, hoje é assim mas  ao fim de 3 dias não terei nada para dizer. Armado em novato na blogosfera. Novato não, enferrujado. Por fim, depois das 21 h. e de um jantar (mais um, igual a tantos outros que aí virão) a olhar para as notícias sempre iguais,  sempre diferentes, sobre o que se passa e o que aí vem, crio o blog. Este. São 21:50 h.

Ainda incrédulo. Ainda sem pensar muito no que é e o no que vai ser. Vou ter tempo para isso. Demais, infelizmente."

06
Mar25

Dia Internacional da Mulher


É já uma conversa um pouco estafada dizer-se que o "Dia Internacional" é uma falácia, porque deveria ser "todos os dias". Eu concordo. Mas também sei que este é especial e a efeméride é importante para relembrar tanta coisa, desde o aumento dos casos de violência doméstica ao alargamento do fosso salarial ou, mais genericamente, a erosão crescente do processo que considerávamos irreversível, de defesa, alargamento e salvaguarda da igualdade de direitos. Há muitas situações preocupantes. Mas há outras que, felizmente, já se banalizaram. Venho descrever uma, que ocorreu comigo ontem. Passei esse dia na minha Faculdade e não troquei uma palavra que fosse com um único homem. Aconteceu assim, rigorosamente.

Fui ao centro de investigação em que estou integrado, num dos campus da minha Faculdade. Cheguei lá de manhã e só lá estavam a Bruna e a Carla. Depois fui tomar um café e cruzei-me com a Cristina, que é da Direção do Centro (ex-diretora, aliás) e da Faculdade e coordenadora do mestrado em que lecionei, e com quem confirmei brevemente um pormenor pendente da avaliação de um aluno do primeiro semestre. No bar encontrei a Diana, que não via há algum tempo e com quem estive a conversar. Depois passei o resto da manhã no open space  dos investigadores, que tinha pouca gente, como é habitual. Cumprimentei a Aurora, falei à Sandra e sentei-me ao pé da Cláudia, com quem almocei pouco depois. De tarde, voltei ao Centro porque tinha uma reunião de trabalho. Ainda lá estavam a Bruna, a Carla e, presumo, também a outra Carla (mas não a vi). Era uma reunião da Comissão Organizadora de uma conferência internacional que esse centro irá realizar em abril de 2026, e de que faço parte. Somos cinco e eu sou o único homem. Nessa reunião, não esteve presente a Mariana, pelo que passei a tarde a planificar e a discutir os genéricos com os restantes membros: a Carla, a Margarida e a Susete. A última palavra que proferi naquela casa foi dirigida à segurança da Faculdade, na portaria, quando saí do edifício. Também uma mulher, cujo nome desconheço, mas não importa.

É, naturalmente, uma curiosidade. Calhou nesse dia não me cruzar com nenhum colega homem, calhou o Hélder não estar no Centro. Contudo, isto era impensável há duas décadas, impossível quando eu era estudante: descrever um dia de atividade regular no mundo académico em contacto com gestores de ciência, coordenadores executivos e vogais da Direção de um Centro de investigação e de uma Faculdade, coordenadores de cursos, investigadores doutorados, membros de uma comissão organizadora de uma conferência internacional, e serem todos mulheres. O que me parece verdadeiramente importante não é a situação, em si, que aqui descrevo: é o tom de normalidade e banalidade com que, felizmente, ocorre. Eu também não me recordaria se não fosse a aproximação da tal efeméride. Se calhar, já aconteceu outras vezes. Provavelmente. Sei lá.

13
Fev25

crónica de um desemprego anunciado II


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Após a conclusão do contrato, que mencionei no post anterior, dei início às formalidades necessárias: inscrição no Centro de Emprego e pedido do subsídio de desemprego. Tudo online, tudo pacífico apesar de alguns mal-entendidos. Hoje fui confrontado com uma novidade inesperada: já tenho resposta e, para minha surpresa, foi negativa, ou seja, o pedido de subsídio foi indeferido. Justificação: "está a trabalhar". Como? Já disponho da declaração de desemprego da entidade empregadora e o portal da Segurança Social Direta disponibiliza-me idêntico documento emitido pela própria. Então, se a Segurança Social atesta que estou desempregado, como pode negar-me o respetivo subsídio alegando que "estou a trabalhar"? Um telefonema para a linha de apoio esclareceu o mistério: tenho atividade aberta nas Finanças e isso, para a Segurança Social, é quanto basta para atestar o "trabalho" (ou seja, rendimentos). A desconfiança das entidades oficiais em relação às boas intenções do cidadão sempre me surpreendeu, devemos mesmo ser um país de chicos-espertos danadinhos para passar a perna e sacar uma massas ao "Estado". No caso presente, devem imaginar-me um free lancer cheio de avenças e recibos, sem contar o que receberei por baixo da mesa. De nada serviu informar que a tal atividade aberta nas Finanças é uma mera formalidade que me permite receber (e declarar) os direitos de autor do livro que publiquei em 2020 (Os Dias da História), que me rende uns quantos euros anuais. O último recibo que passei foi de 26,28 €, correspondente ao 2º semestre de 2024. É isto que a Segurança Social chama "estar a trabalhar"? A resposta foi implacável: se tenho atividade aberta (qualquer que seja), não tenho direito a subsídio de desemprego, ponto final. Não importam os valores nem a atividade, não interessa se são dezenas de euros de direitos de autor ou milhões de negócios milionários. Bom, acabei por me rir da situação e, evidentemente, corri ao Portal das Finanças para declarar a "cessação de atividade". Depois, toca de submeter o pedido de reapreciação da avaliação. Vai demorar (demora sempre quando é neste sentido, é sempre rápido no sentido inverso, o da cobrança, não é verdade?) mas aguardo que a situação seja corrigida.

Há um aspeto perverso em tudo isto. Os direitos de autor são-me devidos, tenho direito a eles, resultam do trabalho que produzi e pelo qual fui e sou responsável e beneficiário. O subsídio de desemprego também é algo a que tenho direito, porque trabalhei e descontei durante anos para o efeito. Não é uma esmolinha ou um favorzinho que o "Estado" me faz e, muito menos, algo que deva suscitar desconfiança. E, quer sejam 26, 260 ou 26 000 €, ao prescindir deles para ter direito a um direito estou a deixá-los no bolso de alguém, correto? Não dos contribuintes, mas da empresa que mos deveria pagar. Enfim, siga a banda, mais vale, de facto, andar a surripiar malas no aeroporto.

05
Fev25

crónica de um desemprego anunciado I


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Desemprego. Situação estranha, esta em que me encontro. Fui precário (bolseiro e "a recibos verdes") durante toda a minha vida, mas "desempregado" nunca. Aliás, "emprego" também é coisa recente: estou desempregado porque tive, pela primeira vez, emprego durante os últimos seis anos, período inicialmente também estranho porque usufruí de coisas inéditas, como subsídio de férias e de Natal. Pá, que chatice, logo agora que me tinha habituado a elas. E agora tenho direito a subsídio de desemprego, coisa igualmente nova. Portanto, na prática estou melhor do que há 6 anos, mas formalmente (e aparentemente) estou pior: o tal estatuto de "desempregado". Pode-se ser precário ou bolseiro e estar materialmente em maiores dificuldades, mas dizer que se está desempregado tem outro impacto emocional.

A diferença não é assim tão grande, na prática. Na verdade, boa parte da gente que me rodeia sempre achou que já não trabalhava (e que nunca trabalhei) grande coisa. Sem horário das-9-às-6, sem rotina fixa de "ir para Lisboa", sempre fui um caso mais ou menos bizarro, pelo que há muito que deixaram de me perguntar se "faço ponte no feriado X" ou se "trabalho no dia Y". Que a realidade seja a de não ter horário de trabalho e de ter que compensar a aparente disponibilidade durante os "dias úteis" com muitos serões e fins-de-semana, é toda uma outra história que os meus colegas de profissão bem conhecem.

Trabalho tenho (aliás, não falta), emprego é que não. O meu pai sempre disse que que as pessoas não procuravam trabalho, mas emprego, algo que para ele era equivalente a preguiça, ronha, folgas, baixas, regalias, fazer pouco e ganhar muito. "Funcionário público", então, era quase insulto. Só compreendeu a dimensão da proteção social do conceito de "emprego" já muito idoso. No seu tempo (ou, pelo menos, no meio onde cresceu), trabalhar sem receber era coisa impensável. Hoje não é assim. Aliás, é o que não falta. Continuo cheio de trabalho. Já o emprego, o tal que acabou há dias, há-de regressar daqui a uns meses, assim o espero.

Para completar a nova situação, fui hoje entregar a chave das salas de aula da minha Faculdade e já perdi o acesso ao sistema interno de docência. Já não tenho o vínculo, agora sou "investigador externo", como até 2019. Faltava-me apenas uma coisa, a inscrição no Centro de Emprego, pelo que lá fui fazê-lo online, no site do IEFP. A principal dificuldade foi encontrar a minha profissão. O meu contrato de trabalho diz que fui "investigador contratado". Portanto, fui à procura de "investigador", mas o menu do site não colaborou: por lá constam "investigador de fraude financeira", "investigador de fraudes nos seguros", até "investigador em tanatologia", tudo excelentes opções de investigação, estou certo, mas "investigador em História" ou "em ciência" ou "em Humanidades", nicles. Depois percebi que existe a opção "historiador". Uau. Profissão: historiador, ena, que luxo, não fosse o facto de estar localizada na classe profissional de "filósofos, historiadores e especialistas das ciências políticas". Pobre de mim e dos meus pares, engavetados em tais companhias e entalados entre "farmacêuticos" e "fisioterapeutas". Feito, aguardo validação. Consummatum est. Ah, espera, bem me parecia que era tudo demasiado fácil. Recebo um email a pedir-me a DSP, "declaração de situação de desemprego". Não basta o documento da Faculdade a atestar o facto, é preciso mesmo que de lá venha, devidamente preenchida e assinada, essa DSP, na verdade, o impresso da Segurança Social Mod. RP 5044/2018 - DGSS. Já remeti e aguardo. Cheira-me que ainda vamos ter festa e que apesar das facilidades de inscrição, da submissão online, das assinaturas digitais e dos uploads documentais, ainda vou acabar por ter que agendar entrega em papel. Mas tempo não me faltará e até é bom para me entreter, não é?

 

10
Jan24

quando toca um alarme, dois alarmes


Lidl do Algueirão, pouco depois das 9 da manhã de hoje. Loja praticamente vazia, como habitual. Um alarme começa a tocar, não o apito de segurança na saída, mas um alarme-alarme. A funcionária que está a fazer reposição de stock responde a um pedido de informção que lhe faço e nem menciona o assunto. O ar é de enfado pelo incómodo que o som agudo provoca, nada mais. Finalmente, a coisa lá pára. Dois minutos depois, outro alarme, este diferente, mas igualmente agudo e incómodo. Estou a caminho da caixa e ninguém parece perturbado com aquilo. Passo por outra funcionária, a quem faço uma expressão de interrogação. Esta, mais jovem e mais tagarela, faz uma piada para o colega da caixa, em bom som. Diz que era bom que fosse qualquer coisa, uma bomba, um atentado, um assalto, um assaltozinho para quebrar a rotina. E perante a galhofa daquele, reforça a ideia, dizendo que não era preciso nada de grave, só queria "ficar com o braço assim um bocadinho queimado para poder meter baixa". O alarme lá se cala e ela fez um ar de desapontamento.

A minha primeira reação foi de indignação, que as pessoas não fazem ideia das enormidade que proferem, ainda que, naturalmente, sem intenção. E que tantos milhões por esse mundo fora não achariam piada nenhuma ao gracejo e sentir-se-iam provavelmente ofendidas. "Precisavas de passar um dia, um diazinho só, em Gaza, em Mariupol ou num sítio errado à hora errada para te aperceberes dos the facts of life e aprenderes a respeitar o sofrimento alheio", pensei, "e que terias uma alta probabilidade de gozar a tal baixa de trabalho que tanto desejas".

A segunda reação foi de satisfação por viver num país tranquilo e com segurança para dar e vender, onde o disparar de alarmes não suscita qualquer reação e não passa de mero percalço que apenas causa um vago incómodo sonoro. Não deve haver muitos países no mundo assim. E muito menos ainda onde não haja qualquer sobressalto e a reação banal seja uma piada de mau-gosto daquelas, dita com a naturalidade de quem tem o baixo salário bem presente e a eventualidade de um episódio de violência extrema tão remotamente distante.

A terceira reação foi de preocupação, porque se e quando ocorrer uma verdadeira emergência, a reação será lenta e incrédula (ao alarme) e provavelmente de pavor irracional (ao evento em si) porque ninguém saberá o que fazer. "Esperar o melhor e estar preparado para o pior" é aquela máxima banal que toda a gente conhece mas que os portugueses adaptam para "esperar (de "aguardar", não de "ter esperança") o melhor (que já se sabe que não virá) e achar que o pior só acontece lá fora". E, sabe-se lá porquê, lembrei-me do acidente ocorrido há dias no aeroporto de Tóquio, quando centenas de passageiros foram evacuados de um avião em chamas em 90 segundos.

26
Nov23

profecia


Vou fazer uma profecia eleitoral para 2024. Não sou certamente o único a fazê-lo, mas aqui vai: o PS vai ganhar as eleições mas sem maioria absoluta. Livre a subir, BE na mesma, PCP em queda, não vai conseguir nova Geringonça. PSD fica em segundo mas consegue maioria de deputados com Chega e IL, ambos com subida. PS forma governo minoritário que cai de imediato. PSD forma governo minoritário com apoio parlamentar dos novos aliados. Vai ser muito interessante ver o PSD virar 180º depois de ter jurado a pés juntos que Chega, nunca, ah espera mas isso era para coligação, não era para apoio parlamentar, o PSD forma governo responsável e apoia quem quiser, ora essa. O PSD, partido sempre avesso ao pântano da corrupção típica socialista, e apenas em nome dos valores superiores de salvar a nação (como fez em 2011), vê-se obrigado, com grande relutância, a ir ao pote. Também vai ser giro ver a reação dos que vilipendiaram a Geringonça, que era anti-natura, que quem ganha deve governar, que apoio do BE e PCP era o assalto da extrema-esquerda ao poder, ah agora não, que o IL é moderado, que o Chega teve uns episódios de excesso de entusiasmo no passado, that's all, eram jovens e imaturos, agora são responsáveis. E o perigo continua na extrema-esquerda que espreita, os tais "radicalismos" para que o Moedas já alerta hoje, extrema-direita não há, nunca houve em Portugal, que disparate.

25
Nov23

25 de novembro


Hoje, 25 de novembro, assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Na Ucrânia, é igualmente o Holodomor Memorial Day. Todavia, por cá, a data tem um significado especial. Não se sabe bem o que aconteceu nesse dia ou, melhor dizendo, o que podia ter acontecido nesse dia. Há muitas dúvidas sobre o que estaria em marcha e quem estaria envolvido, e com que objetivos. Há versões contraditórias, silêncios e omissões. Os historiadores dizem que a data assinala o fim do "Verão Quente" e do PREC. O significado disto é, naturalmente, diverso: para uns, afastou as tentações de instauração de um regime totalitário e assinalou a normalização dos trilhos da democracia portuguesa; para outros, marcou o fim da utopia socialista; basta ouvir o "Eu Vim de Longe" do José Mário Branco para percebê-lo. Portanto, todos concordam na importância da data, embora por motivações opostas.

Nada disto é novidade. O que é novidade, em 2023, é que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa decidiu comemorar a data. É o problema das efemérides quando têm uso político, não são inertes, é-lhes dada "carga" positiva ou negativa. No caso do 25 de novembro, há quem a celebre e quem a lamente. Portanto, e perante a nebulosidade que envolve os eventos desse dia, é uma jogada arriscada: houve realmente uma tentativa de golpe de estado? ou tudo não passou de uma manobra bem engendrada? Na verdade, não importa muito. O que seria interessante - e espero que nos 50 anos assim aconteça - era que surgissem novos dados que permitissem compreender melhor os factos e os contextos, e que o assunto merecesse debate e discussão adequados. Muitos dos intervenientes ainda são vivos, mas o tempo vai pesando e daqui a duas décadas já será tarde demais.

Infelizmente, o que saiu da efeméride em 2023 e da iniciativa de Carlos Moedas foram apenas chavões, estereótipos e aproveitamentos políticos para as próximas eleições, a começar pela pobre prestação do próprio, perdido num devaneio em loop  sobre "radicalismos" e "ativismo moderado". Nada de novo? Nisto, não. Mas na cobertura mediática, sim. Hoje, na SIC Notícias, ouvi uma peça com o seguinte (pelas 13h51): “Na altura, Portugal estava à beira de uma guerra civil, com as forças armadas divididas. De um lado, uma esquerda radical, [de] que o Movimento das Forças Armadas fazia parte, do outro lado, a chamada direita militar, que Carlos Moedas quer lembrar nesta data”. Isto mostra como a erosão da memória coletiva está em marcha e que está instalada a simplificação de cenários complexos, como o do 25 de novembro. Reduzir o MFA a "uma esquerda radical" e classificar o "Grupo dos 9" como "direita militar" é disso prova substantiva e revela o nível da pobreza a que chegou a informação e que molda debates e análises. Otelo ficou quieto nesse dia? Costa Gomes tomou partido? não houve queda de governo? o PCP continuou a integrá-lo? Melo Antunes veio logo à televisão dizer que o PCP era essencial para a democracia? Como, como? Imagino a confusão que isto causa. O melhor é mesmo passar por cima disto e reduzir tudo a duas trincheiras e a uma dicotomia entre "moderados" e "radicais" (como em tantas outras situações) e "esquerda" e "direita", não é?

03
Nov23

de regresso


Quase um ano e meio depois do último post, regresso aqui à chafarica. Motivo principal? falo dele amanhã. Para já, estou farto das "redes sociais". O Facebook perdeu definitivamente o interesse além de permitir algum contacto com atividade, opinião e trabalho de amigos, mas a publicidade, os posts "patrocinados" e, sobretudo, o rasto do algoritmo a bombardear-me com "sugestões" de cada vez que faço uma busca no Google deixam um travo desagradável. Também me cansei da torrente de fotos, muitas, das férias, viagens, gatinhos, cãezinhos e peregrinações alheias, por muito que isto possa parecer misantropo. Mas o X, ex-Twitter, é bem pior. Nunca fui grande utilizador, mas desde há umas semanas comecei a "postar" algumas coisas. Há umas pessoas interessantes, umas opiniões sempre agradáveis de seguir, mas a catadupa de agressividade que, pelos vistos, inundou aquilo deitou tudo a perder. Com a guerra na Ucrânia piorou, o deflagrar da espiral de violência de 7 de outubro tornou aquilo irrespirável. Há dias tive uma amostra da vertigem. Coloquei um post com um mapa, em reação algo irritada com o mapa da Palestina de 1947, que vi publicado e reproduzido várias vezes. Um post irónico, algo na mó de baixo por estes dias. Quem quer ser entendido tem que escrever mui-to de-va-ga-ri-nho e cla-ro o que quer dizer, ou colocar *ironia* (como já vi), senão a turba de cegos raivosos que dispara em todas as direções reage sem pensar. O post vai em 139 mil visualizações, o mapa foi usado "contra" e "a favor" de cada um dos lados da barricada. É assim, são trincheiras e barricadas que trocam insultos e sinais de desprezo. Recebi muitos, entre idiota, palerma, besta, burro do caralho, nobel da burrice e outros mimos. Gosto de polémicas, não gosto de pocilgas. Talvez tente o bluesky. Para já, vou recolher-me a este canto. Amanhã volto, dia de efeméride particularmente dolorosa por estes dias.

12
Abr22

manias de historiador


Todos nós temos manias, pequenos vícios, superstições e hábitos irracionais. Quando se é miúdo são muitos, como pisar só as lajes brancas, fazer equilíbrios nos carris, meter o dedo lá, onde nos dizem para "não mexer", etc. Quando crescemos, deixamos de dar por isso. Mas elas continuam lá. E algumas agravam-se. Uma que me afeta particularmente é a de ver datas em todo o lado. Quatro dígitos em que o primeiro seja um 0 ou um 1, então, é uma desgraça, vejo logo uma data e associo (ou tento) a um evento. Acho que o meu testemunho "anti-efeméride" que escrevi numa introdução de um livrinho sobre  "Os Dias da História" escondia uma reação do meu subconsciente a esta mania.

Lembro-me, nos tempos "da tese", dos dias sucessivos de secretária e de escrita (e das dificuldades crónicas de concentração, evidentemente), de olhar para o relógio e procrastinar conscientemente com datas. Almoçar e ficar disponível para trabalhar "na conquista de Ceuta" (14:15), e descobrir, pouco depois, que já tinha passado "o descobrimento do Brasil" (15:00). Ah! e jurar a mim mesmo que começaria a trabalhar "no fim da tese" (16:19 - data terminal da cronologia da dita), o mais tardar pelo "Conde de Linhares" (16:29-16:35 - vice-rei da Índia). E que lá pelas Invasões Napoleónicas, o mais tardar pela Revolução Liberal, aquela parte teria que estar escrita e acabada. Claro que a coisa arrastava-se sempre até à viragem do milénio, geralmente entrava nos domínios cronológicos da ficção científica e muitas vezes passava para o dia seguinte, num reset que fazia repetir tudo.

Mais recentemente, essa mania passou para os combustíveis, quando as bombas passaram a exibir os preços no exterior. Enquanto a coisa andou pela Idade Média, ainda vá que não vá, séculos XIII e XIV nunca foram o meu forte. Agora quando nos aproximámos do século seguinte é que foram elas. Durante algum tempo, bem, utilizei isto a meu favor, era uma forma de poder comparar as várias marcas. A BP estava no Tratado de Alcáçovas, a Cepsa, na Mina, a Galp, na viagem de Colombo. Os talões de desconto baralharam tudo, calma lá que História e Matemática nem sempre se deram bem. Depois habituei-me a ir à Prio porque poupava-me a contas complicadas de "0,10 € de desconto em cartão" (com validade limitada) e porque fazem recolha confortável de óleo culinário usado.

A recente subida dos combustíveis despertou-me para o assunto. Raios, chegou a entrar no domínio da futurologia, eu sei lá o que associar a 2027? Há dias confortei-me ao ver "George Orwell/Trovante" numa das bombas. Uma (pequena) costela de mim até gostou, afinal tudo o que mais caro que 1,966 € tem a ver com a minha vida. Palpita-me que nas próximas semanas, e apesar das promessas governativas, não sairemos muito do Estado Novo ou da Guerra Fria. Pronto, lá está, lá vem a Ucrânia e os russos a propósito. Raios. E eu a jurar que iria passar uns minutos a escrever ao correr da pena sem me lembrar da guerra.

25
Mar22

a represália simbólica


Há uma cena do "Império do Sol" que me marcou particularmente: aquela em que, após o campo de prisioneiros em que decorre a ação ter sofrido um ataque da aviação norte-americana, os guardas japoneses atacam os barracões onde os prisioneiros estavam alojados, partindo janelas e instalações. O médico que por lá anda grita algo como "que estupidez, que culpa temos nós?". É um facto que a guerra acirra e estimula a cegueira e a estupidez (como se a Humanidade não estivesse já tão generosamente servido de ambas), mas particularmente irracional é a lógica da - bom, como chamá-la? - "represália simbólica", aquela que em nada contribui para o conflito presente ou passado, mas apenas como alívio, desforra e vingança, ainda que completamente inútil. Mais que inútil, injusta, porque incide sempre sobre quem está indefeso e, com a maior das certezas, não tem qualquer culpa ou responsabilidade. Incide sobre pessoas, mas também sobre cultura, sobre memórias, sobre História, numa espécie de torrente que leva tudo adiante.

Há uns anos, num encontro internacional de uma prestigiada ONG que decorreu em Lisboa, um dos elementos do Board internacional insurgiu-se e protestou por considerar inadmissível e ofensivo que uma das salas de trabalho tivesse uma determinada designação. Ainda pensei que algum responsável desvairado do hotel onde decorriam os trabalhos tivesse batizado a sala de "Adolf Hitler", "White Power", "Fags Go Home" ou "Negroes Not Allowed", tanto mais que se trata de uma ONG de defesa dos Direitos Humanos. Fui ver. A sala chamava-se "Vasco da Gama" e o senhor em causa era indiano. Como historiador, compreendi o desagrado que o nome lhe possa ter causado, porque conheço tanto os atos do referido personagem como o que a historiografia indiana pós-1947 discorreu acerca dele. Mas fiquei a pensar no perigoso que é este tipo de atitudes, em variadas dimensões. No essencial, não compreender que os personagens da História podem ter ângulos distintos e significados diversos. Estando em Portugal, nada estranha que uma sala de um hotel tenha o nome de um dos seus heróis, além do facto de Vasco da Gama não ter sido propriamente um Gengis Khan. Naquele momento, senti que era a nós, aos anfitriões que estava a ser apontado o dedo pelo passado de Portugal, a retirada do nome da sala era uma "represália simbólica" da História, ainda que despropositada e, em boa verdade, pouco polida. Felizmente que o pequeno incidente não teve consequências, nem pessoais nem no sucesso dos trabalhos em curso. Mas tive pena de não ter tido ocasião de falar melhor com ele e de lhe explicar tudo isto. Fiquei-me pelo riso ao imaginar na apoplexia que um passeio à margem Sul lhe poderia ter causado.

Vem isto a propósito da exclusão de nomes de figuras russas de cartazes culturais, de não haver filmes russos no Fantasporto e de a Universidade da Florida ter retirado o nome "Karl Marx" de uma das salas, devido à invasão russa da Ucrânia. É daqueles casos que não contribuem em nada para coisa nenhuma, sabendo perfeitamente, ainda por cima, que nem Marx era russo nem a Rússia é comunista. No fundo, é apenas mais um degrauzinho que se desce na escala "represália simbólica", a caminho do absurdo.

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